A morte sabe dançar?



Ele não estava vazio. O vazio já havia se tornado parte dele. Agora ele era vazio!
Dentro desse vazio, vozes sinistras ecoavam e ecoavam. O som que ninguém ouvia, o ensurdecia.
No fundo do seu vazio, jazia a certeza de que os anos de bonança prenunciavam as tempestades que viriam, essa certeza sempre esteve ali, só estava sendo ignorada.
Enquanto ele sorria, brincava e amava algo o avisava, sempre foi assim, algo dizia que essa fantasia terminaria.
O eco das vozes e a sensação de déjà vu, estavam a enlouquece-lo.
A Angustia o apertava contra a parede, o enforcava e convidava em êxtase a morte. Enquanto a vida fugia por entre seus dedos, a morte se apossava de tudo que era bom, não havia luz, felicidade, nem sequer memórias. A chegada da morte roubara tudo que tinha, era somente medo, terror e escuridão.
A mesma voz angustiante que convidou a morte, também a despediu. E ao abrir os olhos havia somente Angustia.
Os sussurros em tom de deboche entoavam a canção mais infernal que já ouvira.
Sua vida estava completamente tomada por tudo que vivera, nada tinha mais brilho, nada mais o tocava, nada parecia real. O som dos passos ao chão eram abafados pela canção entoada pela morte, as fotos que deveriam o lembrar de coisas boas, só pareciam lembrar o sorriso angustiante da angustia.
Esses encontros com a Angustia e a Morte se tornaram cada vez mais constantes. Ao contrário de um relacionamento proibido que se torna mais frio quando mais frequente, os flertes com a angustia e com a morte, a cada dia se tornavam mais quentes...
A vida que parecia bela, sumia assim como a névoa se esvai com o surgir do sol.
Dia a dia, nada de novo debaixo do sol surgia.
A conclusão a que chegara era de que a Angustia, não tinha tido misericórdia dele ao mandar embora a morte e mante-lo em vida. Ele finalmente tinha entendido que os sussurros que ouvia, não eram vozes de fato, eram na verdade os gemidos da angustia que se deliciava com seu sofrer.
O tempo todo, os sussurros eram urros de prazer... O seu andar tropego, as lágrimas e o desejo pela morte, saciavam plenamente o prazer que era cobrado todo dia pela Angustia.
Entender isso não o libertou. Mas agora o baile promovido pela angustia e pela morte, já não era mais realizado em um solitário palácio. Dia a dia mais pessoas se juntavam a bailar, vê-lás era assustador até pra ele. De seus olhos fora arrancado todo o brilho, de suas almas todo o fôlego e de suas memórias todo o bem.
Assim o pequeno baile entre angustia, a morte e aquele mísero homem, se tornou um grande e agonizante baile...


Ouça aquela músiquinha dos amigos e do balão mágico, talvez ajude!

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