Minhas idas ao cemitério



Eu me encontro diariamente com meus amigos mortos à pelo menos 4 anos. Sempre no mesmo lugar, com café e silêncio.
Não estou falando de algum lance místico, nem desse lance que rola nos filmes de terror, estou falando de literatura, só de literatura.


Tenho poucas lembranças da minha infância mas, as que tenho não são positivas. Provavelmente minha infância foi tão ruim quanto a adolescência. Certamente eu me escondia, evitava contato com as outras pessoas, buscava lugares quietos e andava sempre com um livro, pra todo lado.
Agora eu tenho 20 e as coisas não mudaram. Os funcionários da biblioteca me cumprimentam pelo nome, isso parece bom. Eu também os conheço pelo nome, acho que além dos meus familiares, estes são os únicos "amigos" vivos que tenho.
A biblioteca era minha segunda casa, tinha uma cadeira e uma mesa que já me acomodavam a anos. Lá eu ficava a vontade, com meu café e o silêncio de uma biblioteca pouco visitada.





Ray Bradbury escreveu Fahrenheit 451. Construiu uma sociedade distópica onde os livros eram queimados sempre que descobertos. Era um crime terrível esconder um livro. As pessoas amavam a televisão, assistiam o tempo todo, então não tinham interesse nos livros. Eu olho ao meu redor e os livros estão aqui, podem ser lidos mas, continua parecendo um crime abri-los, pelo menos ninguém mas faz isso. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais prefiro pessoas mortas às vivas...

A biblioteca era o lugar perfeito, justamente por isso, ninguém mais ia lá.

Minha leitura atual é "Hamlet" de Shakespeare. Shakespeare tem se tornado um grande amigo, seus escritos tem me cativado, eu gosto de imaginar tudo que ele escreve.


Mas o silêncio quase pleno da biblioteca começou a ser violado, havia algo de errado naquela terça-feira fria, entre as estantes dos romances clássicos e da poesia...

Alguns minutos depois, surge uma garota saltitante e risonha, do tipo que me irrita. Tendo várias mesas ao redor, escolheu a minha e passou a me aborrecer. Ela lia batendo os pés no chão, como um baterista alucinado. Fazia uns sons estranhos com a boca e lia fazendo caretas. Era impossível ficar concentrado com ela ali.

Como se não bastasse isso, começou a me fazer perguntas do tipo: "Qual seu nome?", "Você vem sempre aqui?", "Qual seu livro preferido?".

A minha paz começou a ruir, ela passou a frequentar a biblioteca sempre naquele horário, e sempre tinha novas perguntas irritantes para fazer.

Eu não sei o que ela tinha, além de ser chata, porque no trabalho eu pensava mais naquela garota do que em Hamlet...


O resto vocês já sabem!

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