Tem que ser preto no branco!? Ou dá pra por um rosa ali em cima?



Tudo era cinza. Não havia mais cor nas flores, as árvores estavam secas, os pássaros já não cantavam mais. As pessoas não tinham mais expressão, não carregavam vida em seus olhos e suas palavras eram sempre iguais. Caminhavam para lá e para cá, falavam sempre sobre trabalho, estudos e família. Parecia ser proibido falar sobre música, cinema, literatura...
Só se ouvia os passos no chão duro, entrando e saindo dos prédios com suas pastas e seus ternos.
Eu tinha a impressão de ser invisível. Experimentei dançar na frente das pessoas, nenhum sorriso sequer. Experimentei abraçar e nenhum só músculo se movia.
Os homens estavam sempre com a mesma expressão. Sempre sérios e falando muito pouco. As mulheres também, tinham um rosto sério e abatido.
Os relacionamentos eram tristes, sem carinho, sem amor, não havia sentimento. Os pais, os filhos, os maridos, as esposas, todos sem sentimentos.
Eu estava cercado de pessoas sem vida, sem personalidade, sem criatividade, não havia nada, eram todos vazios. Pareciam ter uma programação a ser cumprida, não tinham tempo para surpresas, não tinham tempo para rir, faziam e pensavam sempre na mesma coisa.
Eu caminhava o dia todo, as vezes corria agoniado, sem rumo, e tudo que eu via era cinza, por todos os lados.
Ontem eu caminhava e comecei a notar que as faixas da rua estavam voltando a ter cor, olhei pro céu e vi que ele estava azul de novo.
Comecei a olhar em volta e vi uma garota diferente de todos os outros, todos vestiam cinza, ela tinha roupas coloridas, tinha rosa, laranja e vermelho e seu cabelo era azul.
Estava sentada em um banco marrom e chorava muito. Quando me sentei do seu lado, toquei-a no ombro e instantaneamente tudo que nos cercava tomou cor novamente. Ela devia ter 17 anos e quando me viu, enxugou as lágrimas, me abraçou e me chamou de Sonhador.
Ela disse que estava quase perdendo as esperanças. Disse que foi expulsa de sua família porque era uma sonhadora, seus pais acusaram-na de ser uma sonhadora. Ela disse que já tinha encontrado alguém como eu mas que, ele tinha desistido de sonhar e também tinha se tornado cinza, como todos os outros.
Todas aquelas pessoas, exceto ela e eu, tinham aberto mão de seus sonhos por uma uma vida estável e infeliz.
Sem sonhos não há vida, somente cinza! Dizia ela...


Meu irmão disse que parece um tal de "doador de memórias", vai entender né?

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