Você disse que voltaria!

Quando partiu, prometeu que voltaria. Eu voltarei, para você e para as crianças! - Disse enquanto abraçava as crianças. Por mais que eu tentasse, não consegui acreditar naquelas palavras. Sentia uma pressão absurda, como se estivesse sendo moída por dentro. Meu coração, pulmão, estomago tudo que está dentro de mim, sendo esmagado até se tornar um só. Uma grande bola de angustia e pavor. 

Fomos com ele até o aeroporto e lá, só pude chorar. O sorriso do meu homem confortava as crianças, estas sorriam e pulavam balançando as mãos. Até logo papai! Volte logo! - Enquanto eu, chorava. 

Ele voltaria em 3 meses. 

As crianças queriam uma festa para recepcionar seu pai. A festa programada teria balões, bolo, salgadinhos e outras coisas que crianças amam. Foi o que programei e assim o seria, se não tivesse recebido uma semana antes da festa, uma ligação. 

- Você é a esposa do Sr. Marcelo Cordeiro, certo? 
- Sim, tá tudo bem? O que aconteceu? Por favor, me fala!
- Senhora, tenha calma.
- Não, como posso ficar calma, me fala logo! Meu marido tá bem?
- Ele foi atingido por uma bala pelas costas. O projétil ultrapassou a nuca até o pescoço. 
- Ele está morto?
- Sim senhora, meus pêsames. Sinto muito, em nome de...

Eu desliguei. Não podia ouvir mais nada. 
Como contaria as crianças? Que seu herói não voltaria? Que não o veriam mais sorrindo? Que não sentiriam mais seus braços fortes os apertando?
E eu? Como ficaria? Sem meu marido, amor, confidente. Dividimos toda uma vida juntos e agora não o tenho mais. 

Por que? 

A festa não foi como programada. Meus filhos não vestiam roupas coloridas, nem tinham cartazes comemorando sua volta. 
Seus pais vestiam preto. Seus irmãos, preto. Seus companheiros, preto. Seus filhos, preto.  E eu? Não só vestia preto, mas tudo que via diante dos meus olhos era preto. Preciso ser forte pelas crianças, mas você disse que voltaria, droga! - Como dói. 

Ele defendeu essa nação com sua vida. Deixou sua família por ela. Foi morto por ela. 
Era um homem cheio de vida, sorrisos e carinho, e agora está morto, num caixão. Sua vida se foi. 

- E tudo que vocês deram a ele foi essa bandeira desbotada sobre seu caixão.

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