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Quando a literatura morreu


Fique a seguir com o programa: Loucuras da velha civilização. No programa de hoje, você ficará chocado com mais um costume estranho que era comum em tempos antigos. - Disse o âncora do Jornal nacional ao se despedir.

Ninguém se levanta do sofá a horas, digo, ninguém exceto eu. É a única hora do dia em que posso ler. Preciso, de tempos em tempos voltar à sala. Me sento e faço perguntas sobre a programação. Tenho de fingir interesse por isso.

Enquanto meus pais estão assistindo o jornal e depois esses programas idiotas, posso ler. É o único momento do dia em que realmente posso ler. Um capítulo, às vezes dois. É o suficiente para mim. 

Consigo ouvir um pouco da televisão daqui. Mesmo estando à poucos centímetros da tela, eles escutam a tv no último volume. Os antigos perdiam horas sentados com livros. É, eu sei o quanto é bizarro, mas é verdade... Com livros!!! - O apresentador do programa dizia isso segurando-se para não gargalhar. 

Eu gostaria de saber quando isso aconteceu, mas não sei. Pego embaixo da cama o único livro que tenho. Preciso escondê-lo bem, porque é precioso para mim. Não me sinto sozinho quando o leio.

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

Eu imagino como a vida era mágica, digo a infinidade de livros que existiam. Você poderia lê-los a qualquer momento. O único livro que tenho, retrata a minha realidade, mas é o único livro. Eu imagino quantas pessoas sentiam isso. Sentiam-se como nos livros. Viam-se nos personagens. 

Oh! Choro... Choro todas as noites por não ter vivido isso. Por não encontrar mais livros. Choro por ter de esconder debaixo da cama o único livro que tenho.

Choro porque a literatura morreu.

Felizmente nossos antepassados deixaram para trás esse costume tolo. Porque perderíamos nosso tempo com livros, quando tempos milhares de canais disponíveis e milhares de programas para assistir? - A platéia do programa enlouquece. Gritos e vivas, posso ouvi-los daqui.

Choro porque Ray Bradbury estava certo.


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