Então a vida é sobre isso?



Eu durmo todas as noites desejando ter esperança. Eu me deito e rezo para seja lá o que, pedindo esperança. Eu durmo querendo ter esperanças quando acordar, mas isso nunca acontece. Manhã após manhã, acordo com o mesmo vazio de sempre. Sem esperanças, sem nada.


O ônibus está lotado às seis da manhã.
E se essa viagem for nossa última viagem? E se esse ônibus tiver como destino o inferno? E se o motorista gordo e fedido for só um dos muitos servos da Morte? Mas por que a morte faria isso afinal? Esse ônibus é o espetáculo diário que nunca perde a graça. Um ônibus cheio de garotos e garotas sonolentos que ficaram até tarde lendo algum artigo que não entenderam, sonolentos por terem permanecido acordados noite adentro, questionando tudo o que fazem. Um ônibus cheio de garotos e garotas que passaram no corredor da morte e abraçaram a vida predefinida para eles. Pegaram o kit faculdade, casamento, filhos e caixão. Por que então a morte acabaria com isso? Esse é o espetáculo que tanto a diverte.
Hey! Fique quieto e ouça a gargalhada da morte...

Estou em pé no corredor, segurando a barra de ferro gordurosa sobre minha cabeça. À direita, à esquerda, atrás e à frente, estou cercado por todos os lados. Pessoas e mais pessoas, mas por que os rostos tristes? São tantos homens e mulheres formados, com seus diplomas em quadros na parede da casa de seus pais. Tantas pessoas bem empregadas, com bons salários, boas famílias, bons carros e belos cachorros.... Por que estão tão tristes, afinal? Hey! Ouça a gargalhada...

Um ônibus lotado de velhos e velhas. Senhores aposentados, já cansados da vida, cansados do cansaço. Senhores que em seu íntimo lamentam o tempo perdido, as viagens não feitas, os amores esquecidos. Sentados em seus bancos amarelos. Bancos amarelos, isso é tudo o que eles têm. Um banco para gestantes, deficientes e velhos. Um banco é o que lhes restou. Um banco foi o que receberam, conquistaram. Um banco amarelo num ônibus lotado, esse é o sonho de todo homem? A vida é sobre isso? Sobre conquistar o seu lugar nesse ônibus para o inferno?

O tempo a longo prazo nos matará, mas a morte para todas essas pessoas veio muito antes. Eu vi amigos morrerem aos vinte anos e continuarem vivendo. Eu vi amigos morrendo aos vinte e três anos e casando pouco tempo depois. A morte é só o apodrecimento da carne, a verdadeira morte vem quando nos rendemos e aceitamos as imposições que reduzem nossa vida à nada!

E mesmo assim, eu continuo me deitando com o mesmo desejo. Ansiando acordar e encontrar outra realidade, outra vida. Ansiando encontrar uma vida cheia de esperanças e cor, mas como? Como é possível? 

A cada dia que passa, quando encontro os mesmos rostos no ônibus, cada vez mais cansados e tristes.... A cada dia que passa sinto o cheiro de putrefação ficando mais forte. Empesteando o ar e apertando minha garganta com seus dedos longos e fortes. 

A linha de montagem da morte está a todo vapor. Seus empregados já tem mais quites prontos para serem entregues. Seu filho logo receberá o seu kit. Talvez ele seja médico, ou professor, ou policial. Talvez ele tenha dois filhos, talvez três, talvez quatro. Ele não tem escolha e mesmo que ainda não entenda nada sobre isso, mesmo que não saiba o que quer ser quando crescer, ele terá de aceitar o kit reservado para ele. Sua filha no jardim de infância logo receberá o kit definido para ela. Uma médica? Advogada? Professora? Não importa. Há algo em todos os quites, algo que vem junto com a faculdade, profissão e casamento....

Todos receberão também o seu atestado de óbito. Uma morte precoce, aos 12 para alguns, aos 16 para outros, aos 18 para os sortudos. A morte da vontade, a morte do ser, a morte da existência e o nascimento de mais um escravo da morte e das imposições. Uma precoce e triste morte, uma infeliz e longa vida.


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