Morto pelo remorso



Eu caminhei, caminhei e caminhei, até minhas pernas não aguentarem mais. Caí de joelhos e depois me deitei. Meus pés sangram e minha pernas tremem.

Eu precisava fugir, e é isso que estou fazendo, mas mesmo andando por horas sem parar, sei que ainda estou perto demais para parar.

Adormeci e acordei. Ainda estava atrás do muro de contenção da pista, deitado sob o brilho das estrelas. O sangue em meus pés estava endurecido e minha cabeça doía, como sempre.

Quanto tempo mais eu terei de andar? Quando tempo mais terei de suportar essas dores que insistem em me escravizar?

Os carros passam voando por mim.

Meus passos agora são lentos e pesados. A noite está fria, mas mal consigo pensar nisso, mal consigo pensar em qualquer coisa. Essa é a única vantagem que existe nas dores de cabeça que sinto, somente assim posso não pensar.

Provavelmente existem pessoas me procurando agora, mas eu queria que não fosse assim. Seria melhor se elas só me deixassem partir, sem dores, preocupações e sem ter de fingir que me querem por perto.

Eu me tornei amargo e tudo o que quero é ficar sozinho, só isso.

Eu não fui um bom pai, nem um bom marido.

Nenhum deles merecia nada do que eu fiz e agora, sinto o peso do mundo sobre meus ombros. Eu preciso partir, porque estou sufocando. Morrerei, sim, mas quero morrer longe e sozinho. Sozinho.

Eu me perdi internamente e agora preciso me perder também por fora.

Caminharei, sim. Caminharei até que eu não possa mais caminhar e então cairei, sim. Cairei e nunca mais levantarei.

Esse fim é mais do que eu mereço, com certeza é. Morrer sob o brilho de um céu estrelado, sentindo o vento a soprar contra mim. É mais do que um homem como eu merece.

Minha cabeça dói e sinto que minha hora está próxima.

Não há tempo para mim.



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