Um lobo solitário


O lobo que agora jaz sozinho pelas matas, caçando e sendo caçado, outrora fez parte de uma grande matilha. De uma matilha forte, cheia de ideias e vida.

Não tenho alegria alguma na solidão que agora me acompanha para onde quer que eu vá, mas também não posso dizer que sinto falta da minha matilha. Estou onde deveria estar. E ainda que isso não tenha começado por minha própria vontade, se manterá por ela. Eu me tornei inquieto com o tempo e temo que isso não seja permitido a nós, lobos.

Os que são vistos como fardo ou ponto de fraqueza, em algum momento precisam ficar para trás. São deixados para trás, expulsos da matilha, condenados.

Eu caminho, corro, caço e me escondo... Sozinho. Onde quer que eu vá, estou sozinho e preciso estar, porque agora sou só um lobo velho e cheio de dúvidas. Não há mais concerto para mim. Minha matilha julgou-me fraco e não podeira os culpar por isso. 

A natureza lhes deu apenas uma opção. É o que são. Lobos ferozes que nunca saciam sua vontade de matar. Seu extinto é dilacerar tudo o que lhes atravessar o caminho. O sangue é a engrenagem fundamental de suas vidas, é isso que são. Lobos, são lobos. 

Se lamento e derramo lágrimas por isso, sim... O faço todos os dias. Quando desperto, quando caminho, quando encontro alimento. Quando os vejo de longe e mal posso os reconhecer. Sim, lamento não ter feito mais.... Sim, choro por isso. 

A solidão de um velho lobo não pode ser romantizada, pois é dor e só dor. As lembranças da grande matilha de lobos amargam meus dias. Lembrar de seus olhos brilhantes por vida e não por sangue... Não há um dia sequer sem que essas malditas lembranças me atormentem. 

Eu disse que não os culpo, também não sei como agiria estando no lugar deles. Há um lobo inquieto, há um lobo que nunca está contente, que sempre anseia por mais. Um lobo que vai contra a natureza. Como eu poderia os culpar por minha insensatez? Como poderia culpa-los por deixar que minhas dores, medos e ansiedades transbordassem sobre eles? 

Não, não os culpo por terem me julgado fraco. Talvez eu seja, pois mesmo que esse corpo, essas patas e esse pelo me digam que sou um lobo, não é assim que me encontro. Não sou um lobo e há tempos deixei de ser. 

Essa carcaça velha de lobo, não pertence a mim. Eu não poderia estar com eles, não depois de tudo. Não depois de abandonar minhas peles e mascarás e revelar quem sou. Não poderia fazer parte da matilha sem ser um lobo. 

Não há nada mais doloroso que fitar os olhos de um lobo e não encontrar mais o brilho que outrora cintilava nesses olhos que tão bem você conhece. Quando o uivar de um amado lobo é só o último eco de uma voz que há anos se perdeu.... Dor.

A matilha me julgou fraco e me deixou para trás. Espero que tornem a encontrar a si mesmos, em algum lugar, em algum momento. Quando isso acontecer, espero estar longe e Sozinho. 

Eu sou apenas um lobo que não tem matilha. Um lobo que viveu e morrerá sozinho. É isso que sou.


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