Feliz dia dos Namorados



Estamos no último ano do ensino médio e eu estou contando os segundos pro baile. Vamos acabar com aquela droga.
Não aguento mais essa gente estúpida, são todos uns filhos da puta! Professores, diretores e meus queridos "colegas" de classe.

Jane e eu, durante todo o ensino médio fomos o casal mais estranho da escola. Confesso que gosto disso, não suportaria a Jane se ela fosse igual aquelas garotas idiotas, que vivem para os outros, se arrumam para os outros e vivem seguindo ordens babacas. Acho que Jane também não me suportaria se eu fosse como os garotos daqui, os caras do time são burros e o resto, é insignificante.

Jane tem cabelos negros, é pálida e só se veste de preto, meia-calça e botas, algum tempo atrás ela cortou a franja um pouco acima da sobrancelha e ficou legal. Ela tem um aspecto meio mórbido.
Eu usava umas camisetas pretas baratas, calça jeans preta e gostava de usar all-star. Meu cabelo é meio bizarro. Sei lá, odeio cortar o cabelo então, ele só cresce seguindo seu curso natural.

Entramos bêbados na escola, mas como não falamos com ninguém, acho que ainda não perceberam.

Todos os dias antes da aula, Jane e eu subimos escondidos pro terraço do prédio onde ela mora, (é incrível como isso ainda acontece e ninguém nota). Subimos de mãos dadas num murinho que deve ter uns 10 centímetros de largura, nos olhamos e perguntamos, "É hoje"?

Até agora concordamos que não é a hora da morte. Mas sempre concordamos que a possibilidade do suicídio é a coisa mais nobre da existência humana. Estar sobre o muro, ou em pé num banco com a corda no pescoço, ou se você tiver uma arma, sei lá, esse é o único momento de real liberdade que você pode desfrutar em vida. Você decide se vai dar um passo, se jogar ou voltar. Você decide puxar ou não o gatilho.

Jane e eu gostamos de caminhar a noite depois da aula, as vezes voltamos pro terraço e ficamos lá durante a noite toda, as vezes vamos para a estrada de ferro da cidade, quando está muito frio a gente procura algum casebre abandonado e fica por lá.

Nossos pais já não se importam com nossa loucura, nós dois temos casas confortáveis e boas camas, só não gostamos disso mesmo. Nossos pais não fizeram nada de errado com a gente.

Temos conversado sobre isso e acho que vai rolar no fim do colégio, no baile talvez, num banheiro qualquer.

É, bem babaca, nós sabemos.

A ideia de estragar o baile foi dela. Queremos devolver com nossa a morte, toda a estupidez que aturamos durante nossa vida.

O lance do terraço é só uma coisa divertida que fazemos antes da aula, não é pra valer.

Ela já começou seu plano pré-morte, está lendo Dostoiévski e Bukowski, desenhando seu vestido de morte e já até aprendeu a escrever alguns palavrões em mandarim. Disse que quer escrever todos que conseguir e deixar sobre seu corpo ensanguentado. Ela gosta de imaginar as pessoas tentando traduzir aquelas palavras escritas sobre seu corpo cheio de sangue vermelho. É meio cômico!

Eu ainda não pensei em nada, sei lá, só quero que chegue logo a hora...

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